Pouco distante daqui,
A vida não mais sorri
Como nos tempos de outrora;
Acabaram-se as canções,
Casa, caças, violões,
Só a saudade lá mora.
Aquela nossa casinha
Caiada, tão pobrezinha,
Com o vento, um dia ruiu.
As pessoas que a ocupavam,
Que discutiam, sonhavam,
O destino dividiu.
Restaram tantas lembranças
Do nosso tempo, crianças,
Na memória de cada um.
A gente levava a vida
Simples, porém divertida,
Felicidade em comum.
O AMOR, a coisa mais bela,
Naquela casa singela,
Com força aconteceu.
Cresceu, como o fogo aceso
No chão de terra batida
Que o nosso frio aqueceu.
Nos dias de tempestades,
As palmas, vindas de ramos,
Acendíamos em oração.
A nossa mãe assustada,
A todos nós ajuntava
Perto do seu coração.
Ela, nas águas do rio,
Quer no calor ou no frio,
Lavando a roupa cantava;
E eu, sentada no chão,
Ouvia, com atenção
Frases que ela sussurrava.
“Senhora lavava, São José estendia,
Menino chorava do frio que sentia.
Filhos de ricos em berço dourado
E tu, meu menino, em palhas deitado”.
O pai contava piadas
Das fabulosas caçadas,
Dos nambus e das trucais.
Falava com tanta graça!
Meu Deus, por quê o tempo passa
E a vida não volta atrás?
Às vezes, a lágrima cai,
Quando o pensamento vai
Pelo o passado viajando,
É sinal de que o AMOR
Que dos nossos pais brotou,
Continua imperando.
Hoje, no céu, com certeza,
Nossa mãe canta baixinho
Para os anjos, estrelas, lua.
O pai fala das caçadas
Dando boas gargalhadas.
Lá, a vida continua.
Nossos irmãos, rodeados
Perto da Virgem Maria,
Ficam a ouvi-la cantar:
-Dorme Jesus pequenino,
Dorme filhinho divino!
Vale a pena sonhar.
Na maturidade aprendemos
Que sonhando viveremos,
Viver é um prêmio, é vitória.
No futuro nossos netos,
Amigos, filhos, bisnetos
Contarão a nossa história.
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