Voltando à bela cidade
Onde minha infância eu vivi,
Com que amargura o Piranga,
Chorando triste revi.
Levaram a água corrente
Do meu caudaloso rio,
Onde eu lavava roupa
Nas frescas manhãs de estio.
Não há mais a transparência
Nem a pureza cristalina
Na água, onde eu mergulhava
O meu corpo de menina.
A grande pedra redonda,
Está lá sim, se esbaldando,
Tomou o espaço, onde o Piranga
Corria cantarolando.
Peixes desapareceram,
Só existem canavieiras.
Onde estão minhas jangadas
De fibras de bananeiras?
O tempo acabou com elas.
As bananeiras secaram,
Morreram as cachoeiras,
Somente pedras sobraram.
O areão, onde eu brincava
Numa gangorra de cipó,
Com a retirada das águas
Que tristeza! Está tão só.
Nele, a voz da criançada
Não leva mais a alegria,
Nem risos, nem cambalhotas.
Dor triste é da nostalgia.
A água que o lavava,
Está longe e lamacenta;
É fétida, contaminada,
De aparência nojenta
Só consegui ser feliz
Quando amigos me falaram,
Que com a lei pró animais
As capivaras restaram.
E passeiam descuidadas
Com liberdade total,
Conduzindo os filhotinhos
Pelo imenso matagal.
Olhando o rio eu choro.
Me alegro, os bichos olhando.
Assim, vou levando a vida,
Assim, vou levando a vida,
Sorrindo, às vezes, chorando.
No lugar das cachoeiras
Só pedra, mais nada não.
Por que não tenho uma pedra,
No lugar do coração?
Assim, talvez, não sofresse
Por tamanha destruição.
Nem teria necessidade,
De expor tal lamentação.
Para esquecer tanta dor,
Fugir da realidade,
Vou pensar no Piranga límpido,
Banhando a minha cidade.
Vou lembrá-lo caudaloso,
De água pura e cristalina,
Para não matar os sonhos
Dos meus tempos de menina.
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