Minha saudosa cidade,
Hoje voltei pra rever-te.
Meu Deus, que desolação!
O meu peito está doendo,
Lágrimas, os meus olhos vertendo.
Terrível revelação!
A linha férrea, que passava
Bem próxima à minha porta,
Está velha, enferrujada,
Coberta por um matagal,
Que encontrou local propício
Para espalhar sua ramada.
Da minha casa tão pobre,
De pau-a-pique e caiada,
Não vi, sequer um sinal;
Por sua fragilidade,
Foi, com certeza, devorada
Por um forte vendaval.
Piranga, que sofrimento!
Onde estão as tuas águas
Tão puras e cristalinas?
O teu caudal barulhento,
Que até me amedrontava
Quando eu era pequenina?
Aquela pedra redonda,
Na qual eu ficava sozinha
Grande parte do meu dia,
Está rodeada de locas,
Pedras maiores e menores
Lhe fazendo companhia.
Teu areão também existe,
Muito maior do que antes,
Sem vida, risos, sem nada;
As crianças o abandonaram,
Buscam games, internet,
Numa busca exagerada.
O que vai fazer contigo
A criançada de hoje
Meu divertido areão?
Não tens nenhum caça-níquel,
Não tens nenhum DVD,
Vais viver na solidão.
Ninguém mais curte as jangadas,
A água contaminada
Não permite tal proeza.
Acabaram os veludinhos,
Os grãos-de-galo, coquinhos,
Destruíram a natureza.
As árvores grossas e copadas
Pelo homem foram cortadas,
Tudo em nome do progresso;
Suas sombras se afastaram
E cederam seu lugar
Para um bairro de sucesso.
Não vi crianças brincando
Nas gangorras de cipós,
Batendo bola ou peteca.
Não vi nenhuma menina
Fazendo cozinhadinho
Ou trocando sua boneca.
Bola de gude, queimada,
Passar anel, fazer roda,
São coisas de outra geração.
As estórias, teatrinhos,
Tudo isto foi enterrado.
Hoje é só televisão.
As casas da minha rua
Que serviam de morada
Pra dona felicidade,
Sumiram como as pessoas,
Deixando, ali no terreno,
Uma tremenda saudade.
Acho que devo parar.
Lágrimas invadem meus olhos,
Vou viver os sonhos meus;
A vida é um vai e vem,
Hoje mal amanhã bem.
Cidade, eu parto triste. Adeus.
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