Se com um par de asas eu pudesse voar,
E entre as nuvens todas vasculhar
Com a minha coragem firme e decidida,
Se eu pudesse ir ao fundo do mar,
Galgar montanhas para te encontrar,
Tal eu faria pai, por toda a minha vida.
Se eu pudesse nas matas me adentrar,
Com animais ferozes me enrolar,
Buscando realizar o meu desejo,
Faria sim, o possível e o impossível,
Para matar a saudade terrível
Que me maltrata porque não te vejo.
Nem tantos anos diminuíram a grandeza
Do teu amor por nós. Amor-pureza
Que sempre encheu de paz o meu viver;
Nem todos os anos serão suficientes
Para matar a saudade dolente.
Se te amei demais, como te esquecer?
Me lembro pai, teu jeito engraçado,
Num canto da cozinha agachado,
Prato na mão, distante o teu olhar.
Quando voltavas, à tarde, da caçada
E aparecias na curva da estrada,
Como eu corria para te encontrar.
E aquelas tuas estórias amalucadas,
Que contavas na volta das caçadas,
Fazendo-nos todos rir, rir de verdade.
O fogo aceso para minorar o frio
Que soprava, vindo das águas do rio,
Batata doce assada. Que saudade!
Fico a pensar pai, o teu desvelo
Quando cortavas o nosso cabelo
Pois dinheiro não sobrava para tal;
O 24 de Dezembro, maravilha!
Reunias os ferroviários sem família
Para conosco passarem seu natal.
Pai, que coração generoso foi o teu!
Tanto é verdade que o próprio Deus
Levou-te cedo para as alturas.
Aqui na Terra foi lindo estar contigo!
Foste pai,companheiro, sempre amigo,
Foste, pra mim, a melhor das criaturas.
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