Recostada numa rede
Pendurada na parede
E num grosseiro mourão,
Após a faina diária,
Eu ficava solitária
Ouvindo alguma canção.
Trinados de passarinhos
Que voltavam pros seus ninhos,
Me levavam a cochilar,
Mas a voz da criançada
Que brincava na enxurrada,
Fazia-me despertar.
A chuva de março, fria,
Sobre os telhados batia,
Caindo mansa no chão,
No meu peito, uma saudade
Dos tempos da mocidade.
Oh! Quanta recordação.
Saudades da minha família,
Pais e irmãos, maravilha,
Da casinha onde nasci;
Do Piranga e cachoeiras,
Jangadas de bananeiras
Com as quais me diverti.
Nos matos colhi pitangas,
Ingás, veludos e mangas
E o saboroso coquinho.
Bela árvore copada!
Em sua sombra arredondada,
Protegi o meu corpinho.
Sentados sobre os dormentes,
Eu e amigos contentes
Pelas noites de verão,
Ao doce luar de prata
Fazíamos serenata,
Ao som d’algum violão.
Acho até que vale a pena
Rememorar estas cenas,
Hoje em dia, em minha mente,
Pois percebo que o passado
Dentro em mim ficou guardado.
Bem melhor é o meu presente!
São os filhos que me gritam,
Os netinhos que saltitam
No mais completo alvoroço;
É o marido que me bajula,
O bisnetinho que pula
Grudando-se ao meu pescoço.
Dizem que a velhice é triste;
Mentira! Ela não existe
Para quem sabe viver.
Sinto que a maturidade
Só me traz felicidade,
Tudo me inspira prazer.
As rugas não me amedrontam
Porque tantas coisas contam
No trajeto do caminho;
A família e bons amigos
Caminham sempre comigo,
Cobrindo –me de carinho.
Da idade não tenho medo,
Porque a vida tem segredos
Que devemos cultivar:
Entre eles, com certeza,
O trabalho é uma beleza,
E o outro é saber amar.
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